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Os primeiros
habitantes desta zona foram povos pré-históricos que se
fixaram na melhor zona de cultivo, junto ao rio, o que lhes
garantia boas condições de subsistência. A navegabilidade do
rio Zêzere trazia gentes das mais variadas partes que aqui
vinham comerciar.
Sendo a cidade de fundação
romana, tinha o nome de Sila Hermínia. Foram encontrados
vestígios
de castros luso-romanos em Senhora da Serra, Verdelhos,
Unhais, etc além de vestígios de uma importante colónia não
muito longe. Existem ainda diversas estradas romanas na Serra
da Estrela, viradas a nascente para evitar o gelo.
A Covilhã
tornou-se, desde a Antiguidade, num ponto de cruzamento de
estradas e caminhos. Foi conquistada e reconquistada várias
vezes, chegando os mouros a destruí-la quase por completo.
Estes acontecimentos levaram a que as gentes da Covilhã
criassem o seu próprio município, segundo Alexandre Herculano,
para se poderem organizar e defender.
A Carta de
Foral à Covilhã, concedida por D. Sancho I, em Setembro de
1186, vem confirmar a sua importância como posto fronteiriço.
Este foral seria mais tarde confirmado por D.Afonso II, em
1217 e ainda mais tarde em 1 de Junho de 1510 por D.Manuel I.
Os limites do alfoz (concelho), definidos pelo Foral, incluíam
Castelo Branco e iam até ao Tejo, Portas de Ródão. É
significativo.
Até ao final
do reinado de D. Sancho II, a vila da Covilhã viveu o espírito
de Reconquista, isto é, de luta contra os mouros. Foi capital
do reino durante a Reconquista. Por várias vezes, o rei se
instalou aqui com a corte.
Terminada que
foi a Reconquista ou seja feita a paz com os mouros, as gentes
da Covilhã passaram a organizar-se economicamente. Havia que
ir além da agricultura de subsistência. O Rei D. Afonso III
vem ajudar ao instituir uma feira anual com a duração de oito
dias. A feira celebrava-se em Agosto, depois da festa de Santa
Maria. Também D. João I concede uma feira franqueada anual a
realizar-se pelo São Tiago e que se tem mantido, com altos e
baixos, até aos dias de hoje.
A indústria
dos lanifícios, entretanto, ia começando a tomar forma. Há que
ter em conta que, por aqui, se deslocavam, vindos de Espanha,
almocreves que levavam lãs para Tomar, seguindo uma via romana
que passava por Paúl, Casegas, Sobral de São Miguel... Era
conhecida como a Estrada da Lã.
A Carta de
Foral aponta para muitas indústrias artesanais, incluindo a
dos lanifícios e abria a porta a todos os que desejassem vir
instalar-se na região.
Uma burguesia, cada vez mais forte, fomentava o progresso e
tornava-a apetecida pelas suas riquezas. No termo da Covilhã,
na Idade Média, incluíam-se mais de 300 lugares.
Os judeus eram já um núcleo importante que chegou a ter
influência na corte.
A arte e a cultura está bastante representada, caracterizando
esta época. A título de exemplo cita-se a capela de São
Martinho, autêntica jóia de estilo românico.
A Covilhã era
uma vila em plena expansão populacional quando surge o
Renascimento. O sector económico com particular relevo na
agricultura, pastorícia, fruticultura e floresta são
realidades. O comércio e a indústria, embora artesanal,
especialmente os lanifícios, estavam em franco progresso. Gil
Vicente cita "os muitos panos finos".
Os judeus
dominavam o comércio e a indústria. Eram os detentores do
capital. A Covilhã e sua região, como transfronteiriças, eram
um bom abrigo. As ruas que vão desaguar na Praça do Município,
de qualquer um dos pontos cardeais, denotam a importância do
comércio e trabalho. As dezenas e dezenas de casas com a porta
larga e a porta estreita - uma entrada para a casa e outra, a
larga, para a oficina mostram essa importância.
O Infante D.
Henrique conhecia bem essa realidade, daí o passar a ser
"senhor" da Covilhã.
A gesta dos Descobrimentos exigia verbas importantes. As
gentes da vila e seu concelho colaboraram não apenas através
dos impostos, mas também com o potencial humano.
A expansão para além-mar iniciou-se com a conquista de Ceuta
em 1415. Personalidades da Covilhã como Frei Diogo Alves da
Cunha, que se encontra sepultado na Igreja da Conceição,
participaram no acontecimento.
A presença de
covilhanenses em todo o processo prolonga-se com Pêro da
Covilhã (primeiro português a pisar terras de Moçambique e que
enviou notícias a D. João II sobre o modo de atingir os locais
onde se produziam as especiarias, preparando o Caminho
Marítimo para a Índia) João Ramalho, Fernão Penteado e outros.
Entre os
missionários encontramos o Beato Francisco Álvares, morto a
caminho do Brasil; frei Pedro da Covilhã, capelão na expedição
de Vasco da Gama para a Índia, o primeiro mártir da Índia; o
padre Francisco Cabral missionário no Japão; padre Gaspar Pais
que de Goa partiu para a Abissínia; e muitos outros que
levaram, juntamente com a fé, o nome da Covilhã para todas as
partes do mundo.
Os irmãos Rui
e Francisco Faleiro, cosmógrafos, tornaram-se notáveis pelo
conhecimento da ciência náutica. Renascentista é Frei Heitor
Pinto, um dos primeiros portugueses a defender, publicamente,
a identidade portuguesa. A sua obra literária está expressa na
obra "Imagem da Vida Cristã". Um verdadeiro clássico.
A importância
da Covilhã, neste período, explica-se não apenas pelo título
"notável" que lhe concedeu o rei D. Sebastião como também
pelas obras aqui realizadas e na região pelos reis
castelhanos. A Praça do Município foi até há poucos anos, de
estilo filipino. Nas ruas circundantes encontram-se vários
vestígios desse estilo. No concelho também.
Exemplos de estilo manuelino também se encontram na cidade. É
o caso de uma janela manuelina da judiaria da Rua das Flores.
É o momento de citar o arquitecto Mateus Fernandes,
covilhanense, autor do projecto da porta de entrada para as
Capelas imperfeitas, no mosteiro da Batalha.
Joel Serrão
sintetiza assim a especial capacidade da vila da Covilhã e sua
zona envolvente para a indústria de lanifícios: "Uma cintura
de vilas e aldeias animadas pelos lanifícios envolve a Serra
da Estrela. Os "panos finos" que se faziam na Covilhã eram
afamados no começo do século XVI (Gil Vicente)".
D. Luís de
Menezes, conde da Ericeira, funda a fábrica - escola na
Ribeira da Carpinteira. Mandou vir técnicos estrangeiros,
sobretudo da Inglaterra (5 estampadores, 4 tecelões, duas
mulheres que fiavam e oficiais de tinturaria). Ainda há ruínas
desta empresa. Poucos anos depois, trabalhavam nesta laboriosa
cidade 400 oficiais e 17 teares. Em 1710, por ordem de D. João
V, todas as fardas do exército português passam a ser
fabricadas na Covilhã e em 1764 é aqui criada a Real Fábrica
de Lanifícios.
O Marquês de
Pombal ao instalar nesta cidade a Real Fábrica de Panos, junto
à Ribeira da Degoldra, vem confirmar as capacidades das gentes
da Covilhã e as potencialidades da sua zona envolvente para a
indústria. O Marquês cria a Superintendência das fábricas de
lanifícios que valorizou os centros beirões, em especial na
Covilhã e no Fundão. Do estrangeiro manda vir tecedeiros e
tintureiros, seguindo o exemplo do Conde da Ericeira, que
abriram e desenvolveram fábricas e teares.
A marca da
importância industrial da Covilhã vê-se no património
industrial, único no País, o que indica os passos dados na
evolução técnica até aos dias de hoje. Resposta aos que
afirmam que a Covilhã não é rica em património construído.
A criação da Escola Industrial, por decreto do Ministério das
Obras Públicas, publicado em 20 de Dezembro de 1864 é,
exemplarmente, o sinal inequívoco da importância da indústria
de lanifícios na Covilhã.
Poucos anos
depois, em 20 de Outubro de 1870, o rei D. Luís eleva a
Covilhã à categoria de cidade: "..., é uma das vilas mais
importantes do reino pela sua população e riqueza;... fecunda
iniciativa dos seus habitantes..." Assim condecora a vila da
Covilhã e as suas gentes.
Como síntese, há que dizer que a Universidade da Beira
Interior - cúpula e corolário deste processo que surgiu antes
dos primórdios da nacionalidade - nasceu, tendo como um dos
primeiros cursos a licenciatura nos têxteis.
Em 1891 é inaugurado o troço
da linha de Caminhos de Ferro da Beira Baixa, entre Covilhã e
Abrantes.