Arqueologia - uma
forma
de cultivar a consciência cívica

O que se pretende com o
presente artigo é, acima de tudo, desmitificar a arqueologia enquanto
ciência e o papel do arqueólogo numa sociedade onde o património cultural e
arqueológico continua a ser mal definido, gerido, valorizado e divulgado.
É necessário perceber, antes de mais, o contributo da arqueologia na
construção do conhecimento do passado e na produção de uma memória
colectiva. Daí a sua utilidade social. Grande parte da preservação da
história humana depende unicamente do trabalho do arqueólogo, uma vez que
estamos a referir-nos frequentemente a elementos patrimoniais não
renováveis; elementos que vão ser destruídos e perdidos irremediavelmente.
Como tal, e ao contrário da ideia do público em geral, o arqueólogo não é
mais um mero "descobridor" ou "caçador de tesouros", dependente de um achado
inédito que lhe traga reconhecimento.
O arqueólogo não é somente
aquele que escava a terra para descobrir o passado. Por trás desse trabalho
está toda uma investigação científica (que inclui trabalhos de pesquisa
bibliográfica e prospecção); a aplicação de uma metodologia específica; a
interactividade com outras ciências como a topografia, cartografia, geologia
e antropologia e toda uma série de condicionantes como o ambiente que
envolve qualquer vestígio, a forma como este é gerido e preservado, etc. Por
todos estes factores, o património arqueológico acaba por ser, um pouco,
consciência do pensamento e mentalidade contemporâneos.
Muitas vezes, o arqueólogo
depara-se com vestígios que sofreram alterações ao longo dos tempos (a nível
de estado de conservação e mesmo de disposição). Para que estas alterações
sejam identificadas, é necessário saber descodificar os sinais que chegam
até nós; é necessário saber interpretar na sociedade contemporânea os
vestígios deixados pelo homem no passado.
Para que este estudo se
desenvolva condignamente é necessário que ele seja realizado por
especialistas da área. Quando tal não acontece muitas são as vezes em que
"objectos estranhos" são levadas para casa por particulares; coloca-se em
risco a perda de toda uma memória da existência do homem do passado e da sua
devida contextualização.
É necessário informar o
público em geral que, ao deparar-se com algo desconhecido e, aos seus olhos
"suspeito" de maior antiguidade, deverá informar alguém da autarquia local
ou concelhia, que devidamente reencaminhará o caso até às mãos do arqueólogo
ao serviço da Câmara Municipal e do Instituto Português de Arqueologia. A
devidainformação da descoberta do material arqueológico é importante para
que este possa ser tratado por profissionais da área.
É urgente tornar clara a
função social e cultural da arqueologia, como meio de preservação do
património. É ao mesmo tempo necessário alertar a comunidade em geral para a
responsabilidade que esta tem sobre o mesmo e para tal, apostar na
divulgação de trabalhos arqueológicos, de modo a que estes cheguem não só à
comunidade científica, mas a todos aqueles que nos ajudam a fazer a
arqueologia de amanhã.
Por:
Ana Duarte (arqueóloga)
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