A romanização em
torno de Alvalade,
algumas descobertas arqueológicas [1]

Uma
nota prévia : À partida, poder-se-á estranhar um pouco o facto de num
sítio da Internet dedicado à Beira Interior surja um artigo sobre um estudo
em território alentejano. Confessamos que tal facto também nos fez hesitar
sobre a sua publicação. Seja como for, por entendermos que este artigo, pela
sua natureza e conteúdo, pode ser uma boa fonte de estudo sobre a ocupação
romana no território que actualmente corresponde a Portugal, e também, para
divulgação do excelente trabalho que o nosso amigo Luís Ramos, que gentilmente
remeteu este artigo, tem desenvolvido na divulgação e preservação do
património da sua região, achou-se oportuno divulgá-lo. - David Caetano
Ao longo dos últimos
dois anos tenho vindo a efectuar estudos e acompanhamentos arqueológicos na
zona de Alvalade, concelho de Santiago do Cacém. Numa primeira vez, em
Agosto de 2002, colaborei com a Dra. Michelle Santos no acompanhamento
arqueológico das obras da Linha do Sul, troço Ermidas-Sado/Funcheira.
Em Setembro do mesmo ano, a
convite do feitor do Monte da Ameira, próximo de Alvalade, e do Sr. Luís
Silva, Presidente da Casa do Povo de Alvalade, fui coordenado pelo Dr. A.M.
Dias Diogo e pela Dra. Laura Trindade no estudo dos materiais arqueológicos
ali depositados e na identificação de algumas estações arqueológicas, que se
encontram neste momento em fase de estudo. Desde Agosto de 2003, tenho sido
o responsável pelo acompanhamento do supradito troço da Linha do Sul, tendo
descoberto um bom número de estações arqueológicas de época romana.
No decorrer de todos estes
trabalhos, foi possível constatar que a ocupação romana foi deveras
importante, sendo disso testemunho o importante número de arqueossítios
descobertos. Sem dissociarmos as estações arqueológicas da freguesia de
Alvalade das encontradas na zona norte da freguesia de Panóias, concelho de
Ourique, porque se complementam, até ao momento foram identificados um vicus
[2] (S. Romão), oito villae (de norte para sul: Monte do Roxo, Ameira I,
Conqueiros, Gaspeia III, Defesa V, Defesa III, Torre Vã III e Labogadas I),
seis pequenos sítios (de norte para sul: Ameira II, Gaspeia II, Retorta I,
Defesa IV, Montenegro e Labogadas II) e uma barragem (Torre Vã I) e julgo
que terá existido uma ponte junto a Alvalade.
O vicus de S. Romão e a
totalidade das villae já estavam instaladas, pelo menos, no final da
primeira metade do século I. No entanto, uma boa parte das villae poderão
ter sido abandonadas no século III, como é o caso da Ameira I, da Torre Vã
III e das Labogadas, Na opinião de Clementino Amaro e Manuel Rosivelt
Santos, a villa de Conqueiros terá permanecido ocupada até finais do séc. IV
[3]. Por seu turno, a villa do Monte do Roxo poderá ter sido ocupada, no
mínimo, até finais do séc. VII / inícios do VIII, enquanto que para a Defesa
V ainda não temos dados seguros. Pelo que nos é dado a observar, teremos
aqui uma situação análoga ao que se passou na zona em torno da Vidigueira,
onde, ao contrário do que sucedeu, por exemplo, no concelho de Serpa,
existiu uma concentração da propriedade ainda antes do século III [4].
As distâncias registadas
entre as villae romanas variam entre os dois e os três quilómetros, com
excepção entre a Defesa III, situada na margem esquerda do Sado, e a Defesa
V, situada na margem direita do mesmo rio, que distam entre si cerca de um
quilómetro. Esta situação é um tanto ou quanto complicada de compreender,
pois pode corresponder a uma de duas hipóteses: por um lado, é possível que
correspondam a duas centuriações distintas, correspondendo a da margem
direita do Sado à civitas Pacencis, e a da margem esquerda à civitas
Mirobrigensis.
Por outro lado, as villae,
pura e simplesmente, não ocupavam o centro das propriedades, preferindo os
seus proprietários construí-las próximo da várzea do rio Sado, onde as
terras são muito mais férteis do que as restantes e a agricultura intensiva
poderia ser praticada. Este último aspecto permite-nos justificar a quase
inexistência de sítios de ocupação romana, junto ao rio, a sul de Panóias,
zona em que ambas as margens do rio são escarpadas. No entanto, embora não
hajam ainda informações que o comprovem por completo, inclinamo-nos para a
primeira hipótese seguindo as opiniões de Jorge Alarcão e de Maria da
Conceição Lopes, que colocam a fronteira entre as duas civitates no rio Sado
[5].
Do ponto de vista
topográfico, na margem esquerda do Sado todas as villae identificadas foram
construídas em pequenas elevações, ocupando o topo e a zona voltada para o
rio, de forma a terem acesso aos terrenos mais férteis, ao mesmo tempo que
ficavam a salvo das inundações. Devo referir que nesta margem a várzea chega
a ter mais de trezentos metros de largura enquanto que na margem direita o
mesmo não acontece. Por esse motivo, enquanto que as primeiras distam entre
duzentos a trezentos metros do rio, as que se encontram na margem direita
estão muito mais próximas do rio, pois não corriam sérios riscos de
inundação.
Do ponto de vista da
economia, podemos facilmente observar que existe, como não podia deixar de
ser, uma enorme quantidade de ânforas produzidas na Lusitânia, pese embora
se registem alguns exemplares béticos e norte-africanos, como é o caso de
uma Dressel 2-4 da villa das Labogadas I. Não deixa de ser interessante que
nesta última villa, a par do fragmento de ânfora, a grande percentagem de
fragmentos de terra sigillata recolhida seja de origem norte-africana, em
detrimento das sud-gálicas ou hispânicas. Este aspecto, associado às formas
cerâmicas recolhidas, indica-nos que as ligações comerciais desta zona do
Alentejo com o norte de África, já se faziam sentir na segunda metade do
século I [6].
A produção vinícula e
oleícola deverá ter sido muito importante, tendo em consideração a enorme
quantidade de fragmentos de dollia [7] recolhidos, sobretudo na Defesa V
(onde também foi descoberto um enorme peso de lagar) e o facto de na villa
do Roxo, também designada por Lugar do Roxo, terem sido encontrados tanques
revestidos de opus signinum, pertencentes a um lagar de Azeite, e grainhas
de uva ressequidas [8].
Também a mineração o deve
ter sido, pois a quantidade de escórias encontradas em todas as villae é
muito importante e as minas do Montinho e do Canal Caveira ficam nas
proximidades, para além do couto mineiro de Vipasca se situar a cerca de 16
kms.
Como é lógico, teriam de
existir vias de comunicação que pemitissem a circulação de produtos
importados e produzidos. Disso é testemunho indirecto a ponte “romana”, como
é conhecida a ponte edificada no século XVI. Não é despiciendo pensarmos que
este monumento terá sido edificado sobre uma ponte mais antiga,
eventualmente romana, por onde passaria uma via que ligasse Miróbriga a
Alvalade e posteriormente a Vipasca e a Pax Iulia, no sentido este/oeste e a
Alvalade com destino à zona de Garvão, onde deveria situar-se a cidade
romana de Arandis.
Outro aspecto a ter em
consideração é o facto de não abundarem nas villae identificadas sigillatas
galo-romanas. Quererá isto dizer que este tipo de assentamentos romanos só
teriam sido ocupados a partir da época de Flávia ? É, quanto a mim, uma
hipótese a ter em consideração, pois a reconstituição de uma inscrição, hoje
infelizmente perdida, indica “(…)M (unicipii) F(lavii) MEROBRIG(ensis) (…)”
[9]. Confirmando-se a hipótese de Miróbriga se situar junto a Santiago do
Cacém e de esta ter obtido o estatuto municipal na época flaviana, à
semelhança de outras cidades, como por exemplo Conimbriga, será óbvio que a
respectiva centuriação do território poderá datar dessa mesma época.
Apenas dois pequenos
assentamentos (casais ?) permitem elaborar propostas de cronologia de
ocupação. São eles Labogadas II, onde foi recolhido um fragmento de bordo de
Lusitana 2, e a Defesa IV, onde apareceram materiais tardios. No que diz
respeito aos restantes, apenas forneceram materiais de construção.
Podemos, em resumo,
observar que na zona situada entre o Monte do Roxo, na freguesia de
Alvalade, e S. Romão, na Herdade da Torre Vã, freguesia de Panóias, podemos
observar vestígios de duas centuriações distintas, uma correspondente a Pax
Iulia, e uma outra de Miróbriga. Ao mesmo tempo, constata-se que a ocupação
de todas as villae se efectua numa época situada entre Augusto/Tibério e os
Flávios, tendo uma boa parte destes assentamentos sido abandonados antes do
século III. A partir desta observação,que, como é óbvio, carece de
confirmação através de escavações arqueológicas, pode supor-se que, a partir
daquela centúria, existe uma tendência para a concentração de propriedade,
sendo que as villae que encabeçaram essas vastas propriedades permaneceram
ocupadas até à época medieval e moderna, como são os casos do Monte do Roxo
e da Defesa III. A mesma duração cronológica parece ter acontecido com o
possível vicus identificado em S. Romão.
O cruzamento de vias em
Alvalade, a quantidade de villae situadas em seu redor, associada à
fertilidade dos solos, sobretudo os da várzea do Sado, e à abundância de
água, permitem-nos levantar a hipótese de existir um vicus em Alvalade. No
Museu Nacional de Arqueologia existem materiais provenientes desta
localidade, não se sabendo se foram recolhidos nos arredores ou na própria
vila. Neste sentido, chamo a atenção para a necessidade de se proceder ao
acompanhamento arqueológico de todas as obras realizadas na zona histórica
desta vila alentejana.
Pelo que podemos observar a
ocupação do território em torno de Alvalade em época romana foi muito
importante. No entanto, tenho a certeza que muito está ainda por descobrir.
Eventualmente, outras villae poderão aparecer em zonas mais afastadas do rio
Sado, como por exemplo no Monte do Carvalhal, onde existe o microtopónimo
Ferrarias, na Borbolega, junto da ermida de S. Roque (situada na Herdade do
Faial) e na Herdade da Carregueira. Só futuros trabalhos arqueológicos, de
prospecção ou escavação o poderão confirmar.
Por:
Jorge Feio (arqueólogo), 2004
Site relacionado:
www.alvalade.info
BIBLIOGRAFIA
ALARCÃO, Jorge de, Portugal Romano, Editorial Verbo, 1973.
ALARCÃO, Jorge de, O Domínio Romano em Portugal, 3ª ed., Lisboa, Publicações
Europa América, 1988.
ALARCÃO, Jorge de, Roman Portugal, Warminster, Aris and Philips, 1988.
ALARCÃO, Jorge de, (Coord.), Portugal das Origens à Romanização, in Nova
História de Portugal, nº 1, Lisboa, Editorial Presença, 1990.
ALARCÃO, Jorge de, “Paisagem rural romana e alto-medieval em Portugal”, in
Conimbriga (Revista), vol. XXXVII, Coimbra, Instituto de Arqueologia da
Universidade de Coimbra,pp. 89-110.
AMARO, Clementino e BARRETO, Manuel Rosivelt Santos, A “villa” de Conqueiros
e o seu enquadramento arqueológico”, comunicação inédita apresentada ao IV
Congresso Nacional de Arqueologia, Faro, 1980.
AMARO, Clementino, “Santiago do Cacém”, in Informação Arqueológica, nº 2,
Lisboa, 1979, pp. 79-82.
BOISSILIER, Stéphane, Naissance D’Une Identité Portuguaise, La vie rurale
entre Tage et Guadiana de L’Islam à la Reconquête (X-XIV siécles), Lisboa,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1999.
DELGADO, M.J., “Sisenando Mártir e Beja sua Pátria “, in Arquivo de Beja
(Revista), vol. VI, 1949, Beja, Câmara Municipal de Beja, pp. 220-240.
DIOGO, A.M. Dias, “Elementos sobre ânforas de fabrico lusitano”, in Estudos
de Arte e de História, Homenagem a Artur Nobre de Gusmão, Lisboa, Veja,
1995, pp. 283-294.
DIOGO, A.M.Dias, “Quadro Tipológico das Ânforas Lusitanas”, in O Arqueólogo
Português (Revista), Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 1987,
pp.179-191.
DIOGO, A.M. Dias, “Elementos sobre ânforas de fabrico lusitano”, in Ocupação
Romana dos Estuários do Tejo e do Sado (actas das primeiras jornadas sobre a
romanização dos estuários do Tejo e do Sado, Lisboa, Câmara Municipal do
Seixal/Publicações D. Quixote, 1996, pp. 61-72.
DIOGO, A.M. Dias, FARIA, João Carlos Lázaro, “Fornos de cerâmica romana no
vale do Sado. Alguns elementos”, in As Ânforas Lusitanas, Tipologia,
Produção, Comércio, Paris, Difusion, E. de Boccard, 1990, pp. 173-186.
ENCARNAÇÃO, José D’, “Problemas em aberto na epigrafia Mirobrigense”, in
Conimbriga (Revista), vol. XXXV, Coimbra, Instituto de Arqueologia da
Universidade de Coimbra, 1996, pp. 129-146.
LOPES, Maria da Conceição, “O Território de Pax Iulia, limites e
caracterização”, in Revista de Beja, 3ª série, vol.II/III Beja, Câmara
Municipal de Beja (Actas das I Jornadas de Beja), pp. 63-74, 1996.
LOPES, Maria da Conceição, A Cidade Romana de Beja, percursos e debates
acerca da civitas de Pax Iulia, Coimbra, Instituto de Arqueologia da
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2003.
MATTOSO, José (dir.), Antes de Portugal Lisboa, Editorial Estampa in
MATTOSO, José, História de Portugal, vol. I, 1997.
QUARESMA, João Carlos, “Cerâmicas de Miróbriga”, in Conimbriga (Revista),
vol. XXXVIII, Coimbra, Instituto de Arqueologia, 1999, pp. 137-200.
QUARESMA, João Carlos, Terra Sigillata Sudgálica num Centro de Consumo:
Chãos Salgados, Santiago do Cacém (Mirórbriga?), Lisboa, Instituto Português
de Arqueologia, 2003.
Notas:
1 – Trabalho realizado sob coordenação da Dra. Sílvia Renata da empresa
GEOARQUE, Consultores Para a Área do Património, Lda. Desde já, gostaria de
agradecer à REFER, à FEBRITAS, e à GEOARQUE a possibilidade que me deram de
publicar os dados resultantes do acompanhamento arqueológico das obras da
Linha do Sul-
2 – Uicus. Genericamente, povoado romano de segunda categoria equivalente às
vilas actuais.
3 – Cf. Clementino Amaro e Manuel Rosivelt Santos Barreto, “A “Villa” de
Conqueiros e o seu enquadramento arqueológico”, comunicação inédita
apresentada ao IV Congresso Nacional de Arqueologia, realizado em Faro em
1980.
4 – Cf. Jorge de Alarcão, “Paisagem rural romana e alto-medieval em
Portugal”, in Conimbriga (Revista), vol. XXXVII, pp. 108-110.
5 – Esta hipótese foi defendida por Maria da Conceição Lopes em A Cidade
Romana de Beja percursos e debates acerca da civitas de Pax Iulia, p. 61.
6 – É também importante que se refira que um dos tipos anfóricos encontrados
na villa de Labogadas é a Lusitana 12, uma ânfora píscicola, datada da
primeira metade do século I, considerada rara. No entanto, têm vindo a ser
descobertas um pouco por todo o sul do país.
7 – Talhas.
8 – Cf. M.J. Delgado, “Sisenando Mártir e Beja sua Pátria”, in Arquivo de
Beja (Revista), vol. VI, pp. 220-240 e António Carvalho, “Evidências
arqueológicas da produção de vinho nas villae romanas do território
português: grainhas de uva, alfaias vitícolas e lagares de vinho”, in
Jean-Gérard Gorges et F. Germán Rodrigues Martin, Économie et Territoire en
Lusitanie Romaine, pp. 361-390.
9 – Cf. José D’ Encarnação, “Problemas em aberto na epigrafia Mirobrigense”,
in Conimbriga (Revista), vol. XXXV, p.133.