Novos achados
arqueológicos no Concelho do Sabugal (1)
O Dólmen de Sacaparte.

A descoberta.
Todos sabemos que os incêndios
florestais são um dos maiores flagelos desta região. Mas, só na Arqueologia
é possível encontrar ainda algum contentamento no meio da desolação
paisagística e natural que os fogos causam, quando se descobre um importante
achado arqueológico camuflado durante anos pela vegetação abundante.
Foi o que aconteceu no último Verão,
nas proximidades do Convento de Sacaparte. Num passeio ocasional pelas
imediações, o arquitecto Paulo Marcos detectou, no interior de um pinhal
moribundo, três lajes de granito fincadas no solo, na vertical e encostadas
entre si, formando os três lados de uma construção quadrangular arruinada.
Após o intrigante achado, o arquitecto
entrou em contacto connosco para que interpretássemos os vestígios. Quando
visitámos o local, colocou-se a hipótese de ser um abrigo de pastores ou os
restos de um muro destruído, mas as pedras tinham uma dimensão exagerada
para serem utilizadas em qualquer função temporária e transportadas apenas
por um indivíduo, e não se justificava esta construção isolada num terreno.
A observação detalhada da morfologia
das lajes empregues, da sua disposição e da sua localização no topo de um
relevo elevado, com amplo domínio visual da paisagem envolvente, deu-nos
indícios da sua grande antiguidade. Com a limpeza da vegetação superficial,
constatámos que o terreno denotava um anómalo amontoado de pedra miúda em
torno das lajes, que a forma de colocação das pedras fincadas no solo era
cuidada e que a orientação Este-Sudeste do eixo principal da construção
permitiam acreditar que se tratava dos vestígios de um dólmen pré-histórico.
As três pedras constituem os restos de
uma construção mais complexa, da qual só visualizamos uma parte reduzida,
pois o monumento terá sido destruído ao longo do tempo, pelos trabalhos
agrícolas, pela plantação do pinhal e pela reutilização das pedras em muros
das propriedades envolventes. Mesmo assim foi uma sorte terem sido
preservados estes restos até aos nossos dias.
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O salvamento do monumento.
Foram efectuados contactos com o
proprietário do terreno para informá-lo do achado, tendo-se este
disponibilizado para colaborar no que fosse possível, informando-nos que,
quanto à valorização do sítio, não via qualquer inconveniente, mas
alertou-nos que os pinheiros ardidos tinham sido já vendidos.
Todas as posteriores tentativas para
entrar em contacto directo com o actual comprador dos pinhos, pretendendo
avisá-lo que não destrua estas três lajes, têm sido goradas. Conversámos com
alguns madeireiros a trabalhar na área, que foram alertados para este valor
patrimonial, no entanto nenhum deles era responsável pelo corte deste
pinhal. Passados estes meses, todos os pinheiros envolventes foram cortados,
excepto os do terreno do achado.
No momento em que escrevemos este
artigo, não há garantias totais de que o monumento não venha a ser
destruído. Mas, o comprador das árvores manifestou, por interposta pessoa, o
seu desejo de nos avisar do dia em que se proceda ao seu corte. Aguardamos
que a qualquer momento nos seja dado o alerta para que possamos envidar
esforços para a preservação dos restos pré-históricos, sem comprometer o
corte das árvores.
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O que é um dólmen?
Um dólmen (palavra erudita de origem
bretã, derivada de tol = mesa + men = pedra), popularmente chamado de anta
(palavra latina), mesa, arca ou orca, é uma construção megalítica feita, por
isso mesmo (mega = grande + litos = pedra), com grandes pedras. Trata-se de
um monumento sepulcral delimitado por pedras mais ou menos verticais, em
número variável – os esteios, e coberto por uma grande laje horizontal – a
mesa ou chapéu, formando uma câmara que se prolonga, por vezes, por um
corredor igualmente coberto. As câmaras fúnebres podiam ter grandes
dimensões, com mais de 2 metros de altura, outras vezes eram mais baixas,
como sucede neste caso.
Nestas estruturas eram colocados os
restos mortais dos indivíduos pertencentes às comunidades neolíticas e
calcolíticas desta região. Junto com os despojos funerários eram depositadas
algumas peças de cerâmica e outros artefactos de pedra polida ou lascada.
Muitas vezes os próprios esteios das antas apresentam também pinturas ou
gravuras de arte esquemática, de significado desconhecido, que contribuem
para a datação do monumento.
Mas o dólmen não se reduzia apenas ao
grande caixão de pedra. Estas lajes estavam, na origem, cobertas por um
amontoado de pedra miúda e de terra que revestiam por completo a estrutura
pétrea, formando uma suave elevação no terreno, de forma semiesférica, que
popularmente se designa por mamoa. As antas que hoje visualizamos estão, por
isso mesmo, já bastante descaracterizadas, pois apenas lhes sobra o
esqueleto de pedras da câmara interior.
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Projectos para o futuro.
Para o ano que vem, logo que se
proceda ao corte do pinhal ardido, pretendemos efectuar escavações que
permitam compreender o resto da planta do monumento funerário, obter
vestígios que definam a sua tipologia e recolher algum espólio que
possibilite a sua datação. O megalitismo é um fenómeno que se circunscreve
ao período final do Neolítico (final do V milénio a.C. até final do IV
milénio a.C.) e ao Calcolítico (a partir do III milénio a.C.), com algumas
reutilizações já na Idade do Bronze. Por isso, só uma análise cuidada poderá
permitir uma cronologia mais rigorosa.
Prevê-se, no seguimento desta
campanha, a valorização do monumento e da envolvente, criando acessos
assinalados por sinalética viária e um painel explicativo junto da
estrutura. Felizmente, a sua proximidade ao património arquitectónico de
Sacaparte e às suas infra-estruturas de apoio, proporcionam condições para a
devida valorização deste espaço funerário pré-histórico.
Será muito difícil a reconstituição
integral da anta. Existem diversos tipos de monumentos megalíticos e,
partindo apenas do registo sobrante dos vestígios, é quase impossível
refazer a sua planta original. Como tal, a reconstrução do monumento com
novos esteios e com a colocação de uma tampa será sempre, do ponto de vista
científico, pouco correcta. Preferimos a criação de réplicas em espaços
museológicos e a elaboração de painéis explicativos que permitam aos
visitantes compreender o monumento em questão.
Ficaremos também a aguardar que novas
descobertas megalíticas venham a acontecer. Iremos procurar mais vestígios
nas imediações e esperamos que algum dos leitores possa alertar o Gabinete
de Arqueologia do Município se souber da existência de algum vestígio
semelhante no concelho.
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O megalitismo na região:
Este dólmen é o último e único
testemunho megalítico preservado no concelho do Sabugal, apesar de bastante
destruído. No entanto, sabemos que a região do vale superior do rio Côa foi
rica em termos de megalitismo, porque existiam cerca de 9 antas no actual
limite municipal que foram entretanto destruídas: cinco em Ruivós, duas em
Aldeia da Ribeira, uma no Cardeal e outra na Bendada.
Temos uma ideia aproximada de como
seriam os dólmenes de Ruivós, graças à descrição do Pe. Gaspar Simões, nas
Memórias Paroquiais de 1758, onde é dito que: «estão postos em campo raso
(…) consta cada hum de cinco, ou seis, ou sette pedras de doze, ou quatorze
palmos (…) as quaes estão levantadas na terra em círculo, e arrimadas huas
às outras, e sobre ellas assenta a pedra de meza». O pároco de Ruivós afirma
ainda que «mandey cavar dentro (...) e da parte de fora apparecerão (...)
hua pedra de pederneira, do cumprimento de huma pollegada e do feytio de hua
costela de hum carneiro e cinco de afiar quasi de cor azul claro e quasi do
cumprimento de hum palmo e todas cinco do mesmo feytio, que são bem
similhantes ao ferro de hua juntoira de carpinteiro» (JORGE, Carlos
Gonçalves (1990) - O concelho de Sabugal em 1758 - Memórias Paroquiais.
Edição da Associação Recreativa e Cultural dos Forcalhos, p. 75).
Pela descrição percebemos que terão
sido encontradas no local facas de sílex e machados de pedra polida. Segundo
o mesmo pároco: «todas estas pedras guardo em minha casa para prova e
memória». Mas outros autores referem que devem encontrar-se actualmente na
Biblioteca do Seminário de Évora. A tentativa de localização destes
materiais no referido estabelecimento de Évora foi frustrada. Talvez estejam
perdidos para sempre.
Joaquim Manuel Correia ainda viu os
restos da única anta que existia em Ruivós nos inícios do século XX, nas
proximidades da capela de São Paulo, convertida em «redil ou chiqueiro de
cabritos». Segundo as suas palavras, tinha «ainda três grandes pedras,
medindo uma, seis palmos de altura e outra nove palmos e meio, e dois e meio
de espessura» (CORREIA, Joaquim Manuel (1992) – Terras de Riba-Côa. Memórias
sobre o Concelho do Sabugal. 3ª ed. Sabugal: Câmara Municipal, p. 228).
Noutra publicação este investigador apresenta até um desenho representativo
do monumento (ver foto: In CORREIA, Joaquim Manuel, (1905) - Antiguidades do
concelho do Sabugal, O Archeologo Português. 10. Lisboa. 1ª série. 10:6-9,
p. 207 e fig. 3).
Já percorremos estes terrenos e
constatámos que não se conservam quaisquer restos destas primitivas
construções megalíticas. É uma pena que se tenham perdido, pois teríamos
hoje um bom conjunto de monumentos pré-históricos no concelho.
Se esta descoberta de Sacaparte é por
si só estupenda e inesperada, mais importância ganha pelo facto de serem
escassos os vestígios preservados de antas na região a nascente da Serra da
Estrela (ao contrário da Beira Alta, onde são abundantes os exemplos).
Neste território temos a anta de Pêra
do Moço como um dos exemplares mais conhecidos (freguesia de Pêra do Moço,
Guarda). Este monumento, situado junto à estrada entre a Guarda e Pinhel,
foi recentemente restaurado e valorizado para visita. Existe também um outro
dólmen intacto no Casal da Pedra de Anta, na freguesia da Malhada Sorda
(Almeida), a cerca de 2 km do limite do concelho do Sabugal. Aí também se
observa um monumento com esteios graníticos bastante elevados e a respectiva
tampa na parte superior, apresentando gravuras esculpidas nas lajes da
câmara. Conhecem-se também alguns outros monumentos megalíticos no concelho
de Belmonte, nas proximidades das Ínguias e do Monte do Bispo.
Esperemos que este número possa
aumentar com o incremento da actividade arqueológica e ainda possamos deixar
para as gerações futuras alguns monumentos funerários pré-históricos
preservados, que mostrem como esses homens se preocupavam em construir a
última morada dos seus mortos.
Marcos Osório
Arqueólogo do
Município do Sabugal
site associado:
arqueoblogo.blogspot.com
Declarações de
Marcos Osório em Junho de 2005 gentilmente cedidas pela
Rádio F
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Parte
3 |
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