ArqueoBeira - Recursos arqueológicos da Beira Interior.  Artigos  

Cinema - Exposições - Publicações - Notícias - Roteiro - Adicionar página - Acerca deste site - Publicidade

 

Procura geográfica de sítios e monumentos da Beira Interior (Distritos de Castelo Branco e Guarda).

Clique aqui para procurar
 

 
 
 
 Cartaz
  Cinema
  Exposições
 
Publicações
  
 Notícias
  Destaque
  Regional

  Nacional
  Internacional
  Reportagens ArqueoBeira
 

 História
  História das localidades
 
 Wallpapers
  Wallpapers ArqueoBeira
 
 
 

 
Adicionar Página
 Acerca deste site

 Contacto Directo
 Mailling List
 Publicidade

  
 
 

 
O regresso após a férias de Verão.
(14 de Setembro)

Secção de Publicações actualizada
(14 de Janeiro)

Nova fotografia do mês
(14 de Janeiro)

 

 Artigos
<< artigo anterior  

Novos achados
arqueológicos no Concelho do Sabugal (1)
O Dólmen de Sacaparte.

A descoberta.

Todos sabemos que os incêndios florestais são um dos maiores flagelos desta região. Mas, só na Arqueologia é possível encontrar ainda algum contentamento no meio da desolação paisagística e natural que os fogos causam, quando se descobre um importante achado arqueológico camuflado durante anos pela vegetação abundante.

Foi o que aconteceu no último Verão, nas proximidades do Convento de Sacaparte. Num passeio ocasional pelas imediações, o arquitecto Paulo Marcos detectou, no interior de um pinhal moribundo, três lajes de granito fincadas no solo, na vertical e encostadas entre si, formando os três lados de uma construção quadrangular arruinada.

Após o intrigante achado, o arquitecto entrou em contacto connosco para que interpretássemos os vestígios. Quando visitámos o local, colocou-se a hipótese de ser um abrigo de pastores ou os restos de um muro destruído, mas as pedras tinham uma dimensão exagerada para serem utilizadas em qualquer função temporária e transportadas apenas por um indivíduo, e não se justificava esta construção isolada num terreno.

A observação detalhada da morfologia das lajes empregues, da sua disposição e da sua localização no topo de um relevo elevado, com amplo domínio visual da paisagem envolvente, deu-nos indícios da sua grande antiguidade. Com a limpeza da vegetação superficial, constatámos que o terreno denotava um anómalo amontoado de pedra miúda em torno das lajes, que a forma de colocação das pedras fincadas no solo era cuidada e que a orientação Este-Sudeste do eixo principal da construção permitiam acreditar que se tratava dos vestígios de um dólmen pré-histórico.

As três pedras constituem os restos de uma construção mais complexa, da qual só visualizamos uma parte reduzida, pois o monumento terá sido destruído ao longo do tempo, pelos trabalhos agrícolas, pela plantação do pinhal e pela reutilização das pedras em muros das propriedades envolventes. Mesmo assim foi uma sorte terem sido preservados estes restos até aos nossos dias.

Voltar ao topo

O salvamento do monumento.

Foram efectuados contactos com o proprietário do terreno para informá-lo do achado, tendo-se este disponibilizado para colaborar no que fosse possível, informando-nos que, quanto à valorização do sítio, não via qualquer inconveniente, mas alertou-nos que os pinheiros ardidos tinham sido já vendidos.

Todas as posteriores tentativas para entrar em contacto directo com o actual comprador dos pinhos, pretendendo avisá-lo que não destrua estas três lajes, têm sido goradas. Conversámos com alguns madeireiros a trabalhar na área, que foram alertados para este valor patrimonial, no entanto nenhum deles era responsável pelo corte deste pinhal. Passados estes meses, todos os pinheiros envolventes foram cortados, excepto os do terreno do achado.

No momento em que escrevemos este artigo, não há garantias totais de que o monumento não venha a ser destruído. Mas, o comprador das árvores manifestou, por interposta pessoa, o seu desejo de nos avisar do dia em que se proceda ao seu corte. Aguardamos que a qualquer momento nos seja dado o alerta para que possamos envidar esforços para a preservação dos restos pré-históricos, sem comprometer o corte das árvores.

Voltar ao topo

O que é um dólmen?

Um dólmen (palavra erudita de origem bretã, derivada de tol = mesa + men = pedra), popularmente chamado de anta (palavra latina), mesa, arca ou orca, é uma construção megalítica feita, por isso mesmo (mega = grande + litos = pedra), com grandes pedras. Trata-se de um monumento sepulcral delimitado por pedras mais ou menos verticais, em número variável – os esteios, e coberto por uma grande laje horizontal – a mesa ou chapéu, formando uma câmara que se prolonga, por vezes, por um corredor igualmente coberto. As câmaras fúnebres podiam ter grandes dimensões, com mais de 2 metros de altura, outras vezes eram mais baixas, como sucede neste caso.

Nestas estruturas eram colocados os restos mortais dos indivíduos pertencentes às comunidades neolíticas e calcolíticas desta região. Junto com os despojos funerários eram depositadas algumas peças de cerâmica e outros artefactos de pedra polida ou lascada. Muitas vezes os próprios esteios das antas apresentam também pinturas ou gravuras de arte esquemática, de significado desconhecido, que contribuem para a datação do monumento.

Mas o dólmen não se reduzia apenas ao grande caixão de pedra. Estas lajes estavam, na origem, cobertas por um amontoado de pedra miúda e de terra que revestiam por completo a estrutura pétrea, formando uma suave elevação no terreno, de forma semiesférica, que popularmente se designa por mamoa. As antas que hoje visualizamos estão, por isso mesmo, já bastante descaracterizadas, pois apenas lhes sobra o esqueleto de pedras da câmara interior.

Voltar ao topo

Projectos para o futuro.

Para o ano que vem, logo que se proceda ao corte do pinhal ardido, pretendemos efectuar escavações que permitam compreender o resto da planta do monumento funerário, obter vestígios que definam a sua tipologia e recolher algum espólio que possibilite a sua datação. O megalitismo é um fenómeno que se circunscreve ao período final do Neolítico (final do V milénio a.C. até final do IV milénio a.C.) e ao Calcolítico (a partir do III milénio a.C.), com algumas reutilizações já na Idade do Bronze. Por isso, só uma análise cuidada poderá permitir uma cronologia mais rigorosa.

Prevê-se, no seguimento desta campanha, a valorização do monumento e da envolvente, criando acessos assinalados por sinalética viária e um painel explicativo junto da estrutura. Felizmente, a sua proximidade ao património arquitectónico de Sacaparte e às suas infra-estruturas de apoio, proporcionam condições para a devida valorização deste espaço funerário pré-histórico.

Será muito difícil a reconstituição integral da anta. Existem diversos tipos de monumentos megalíticos e, partindo apenas do registo sobrante dos vestígios, é quase impossível refazer a sua planta original. Como tal, a reconstrução do monumento com novos esteios e com a colocação de uma tampa será sempre, do ponto de vista científico, pouco correcta. Preferimos a criação de réplicas em espaços museológicos e a elaboração de painéis explicativos que permitam aos visitantes compreender o monumento em questão.

Ficaremos também a aguardar que novas descobertas megalíticas venham a acontecer. Iremos procurar mais vestígios nas imediações e esperamos que algum dos leitores possa alertar o Gabinete de Arqueologia do Município se souber da existência de algum vestígio semelhante no concelho.

Voltar ao topo

O megalitismo na região:

Este dólmen é o último e único testemunho megalítico preservado no concelho do Sabugal, apesar de bastante destruído. No entanto, sabemos que a região do vale superior do rio Côa foi rica em termos de megalitismo, porque existiam cerca de 9 antas no actual limite municipal que foram entretanto destruídas: cinco em Ruivós, duas em Aldeia da Ribeira, uma no Cardeal e outra na Bendada.

Temos uma ideia aproximada de como seriam os dólmenes de Ruivós, graças à descrição do Pe. Gaspar Simões, nas Memórias Paroquiais de 1758, onde é dito que: «estão postos em campo raso (…) consta cada hum de cinco, ou seis, ou sette pedras de doze, ou quatorze palmos (…) as quaes estão levantadas na terra em círculo, e arrimadas huas às outras, e sobre ellas assenta a pedra de meza». O pároco de Ruivós afirma ainda que «mandey cavar dentro (...) e da parte de fora apparecerão (...) hua pedra de pederneira, do cumprimento de huma pollegada e do feytio de hua costela de hum carneiro e cinco de afiar quasi de cor azul claro e quasi do cumprimento de hum palmo e todas cinco do mesmo feytio, que são bem similhantes ao ferro de hua juntoira de carpinteiro» (JORGE, Carlos Gonçalves (1990) - O concelho de Sabugal em 1758 - Memórias Paroquiais. Edição da Associação Recreativa e Cultural dos Forcalhos, p. 75).

Pela descrição percebemos que terão sido encontradas no local facas de sílex e machados de pedra polida. Segundo o mesmo pároco: «todas estas pedras guardo em minha casa para prova e memória». Mas outros autores referem que devem encontrar-se actualmente na Biblioteca do Seminário de Évora. A tentativa de localização destes materiais no referido estabelecimento de Évora foi frustrada. Talvez estejam perdidos para sempre.

Joaquim Manuel Correia ainda viu os restos da única anta que existia em Ruivós nos inícios do século XX, nas proximidades da capela de São Paulo, convertida em «redil ou chiqueiro de cabritos». Segundo as suas palavras, tinha «ainda três grandes pedras, medindo uma, seis palmos de altura e outra nove palmos e meio, e dois e meio de espessura» (CORREIA, Joaquim Manuel (1992) – Terras de Riba-Côa. Memórias sobre o Concelho do Sabugal. 3ª ed. Sabugal: Câmara Municipal, p. 228). Noutra publicação este investigador apresenta até um desenho representativo do monumento (ver foto: In CORREIA, Joaquim Manuel, (1905) - Antiguidades do concelho do Sabugal, O Archeologo Português. 10. Lisboa. 1ª série. 10:6-9, p. 207 e fig. 3).

Já percorremos estes terrenos e constatámos que não se conservam quaisquer restos destas primitivas construções megalíticas. É uma pena que se tenham perdido, pois teríamos hoje um bom conjunto de monumentos pré-históricos no concelho.

Se esta descoberta de Sacaparte é por si só estupenda e inesperada, mais importância ganha pelo facto de serem escassos os vestígios preservados de antas na região a nascente da Serra da Estrela (ao contrário da Beira Alta, onde são abundantes os exemplos).

Neste território temos a anta de Pêra do Moço como um dos exemplares mais conhecidos (freguesia de Pêra do Moço, Guarda). Este monumento, situado junto à estrada entre a Guarda e Pinhel, foi recentemente restaurado e valorizado para visita. Existe também um outro dólmen intacto no Casal da Pedra de Anta, na freguesia da Malhada Sorda (Almeida), a cerca de 2 km do limite do concelho do Sabugal. Aí também se observa um monumento com esteios graníticos bastante elevados e a respectiva tampa na parte superior, apresentando gravuras esculpidas nas lajes da câmara. Conhecem-se também alguns outros monumentos megalíticos no concelho de Belmonte, nas proximidades das Ínguias e do Monte do Bispo.

Esperemos que este número possa aumentar com o incremento da actividade arqueológica e ainda possamos deixar para as gerações futuras alguns monumentos funerários pré-históricos preservados, que mostrem como esses homens se preocupavam em construir a última morada dos seus mortos.

Marcos Osório
Arqueólogo do Município do Sabugal
site associado: arqueoblogo.blogspot.com
 

Declarações de Marcos Osório em Junho de 2005 gentilmente cedidas pela Rádio F

Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4


 

<< artigo anterior

Voltar ao topo

 

Comente este artigo > Clique aqui.
 


ArqueoBeira 2001 - Equipa ArqueoBeira 
(Site optimizado para resoluções 800x600)
Sugestões e críticas para Webmaster